


HISTÓRICO
PROJETO 4 VARAS
Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária
O
nascimento de uma comunidade.
Os moradores estavam reunidos e a pauta da reunião era decidir um
nome para a comunidade. Foram sugeridos vários. Terra Prometida gritou
um deles. Jardim das Oliveiras gritou outro. Quatro Varas, falou um senhor.
Todos olharam para ele, meio assustados e sem entender o porquê daquele
nome. Segundo a lenda, há muito tempo, um homem já muito velho,
perto de morrer, chamou seus quatro filhos e mandou que eles fossem à
floresta e trouxessem uma vara cada. Quando eles chegaram, o velho pediu
que cada um quebrasse sua vara e eles o fizeram com a maior facilidade.
Depois, o ancião amarrou-as com uma corda e mandou que os filhos
tentassem quebrá-las novamente. Nenhum deles conseguiu e o velho
disse: meus filhos, eu não tenho riquezas nem bens para deixar para
vocês. Apenas essa lição. Enquanto vocês estiverem
unidos, nada nem ninguém vão conseguir quebrá-los,
separá-los. Mas se vocês se separarem, ficarão fracos.
Depois dessa história, todo mundo aplaudiu a sugestão do velhinho
e fundaram a Comunidade de Quatro Varas. Atualmente, conta com uma população
de cerca de 12.000 habitantes e é uma das 110 comunidades organizadas
do Pirambu, a segunda maior favela do Brasil, com uma população
estimada em 250.000 pessoas.
A Filosofia da Aranha
Certo dia, um cacique Tremembé da região de capim-açu
município de Taperuaba, conhecido por patriarca, veio participar
da terapia. Ele estava ali para tentar encontrar uma cura para o problema
da tribo dele, que estava ameaçada de perder suas terras e vivia
dividida por conflitos internos. Seu problema, obviamente, não poderia
ser resolvido de imediato pela comunidade, pois estava em um outro nível,
governamental. Dr. Adalberto, então, ofereceu-se para ir a sua tribo
com alguns moradores e ver o que poderia ser feito. Chegando lá,
pôde presenciar a Dança do Torém, uma dança típica
dos índios que enaltece os animais, com os quais seus antepassados
conviveram. E entre essas danças, havia a dança da aranha.
Segundo os índios, a aranha é o animal preocupado em construir
sua teia. A teia, que é a fonte de vida da aranha, é também
o seu vínculo vital. Ela é a sua moradia, é o seu alimento,
é o seu transporte. Deste encontro, as duas comunidades se beneficiaram.
Os Tremembés decidiram se organizar em associação cooperativa
e a comunidade de Quatro Varas adotou a aranha para ser o símbolo
do projeto Quatro Varas. Procurou-se identificar os diversos vínculos
da teia comunitária: O vínculo com a terra, permitiu implantar
a Farmácia Viva; o vínculo com a cultura, o Ateliê de
Arte e Terapia; o vínculo com as tradições, a Casa
da Cura. Estendia-se desta maneira a rede da vida.
O Projeto 4 Varas
O fundador e coordenador deste projeto, o psiquiatra e antropólogo,
Dr. Adalberto Barreto, em 1988. Ele ensina medicina social na Faculdade
de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC). Dr. Adalberto
chegou a Quatro Varas através de seu irmão, o advogado Airton
Barreto, morador do Pirambu há mais de dez anos e Coordenador do
Centro dos Direitos Humanos do Pirambu - amor e justiça. Dr. Airton
fundou um centro de atendimento jurídico, localizado no mesmo bairro,
destinado às pessoas que têm seus direitos humanos violados.
Inicialmente, Airton mandava moradores do bairro ao Hospital das Clínicas
da UFC para os cuidados psiquiátricos de Adalberto e seus alunos.
Entretanto, o número de pessoas chegadas do Pirambu começou
a aumentar muito e tornou-se inviável continuarem os trabalhos. Dr.
Adalberto resolveu, então, transferir seu trabalho para o nascedouro
dos problemas, a comunidade.
No primeiro encontro, os direitos humanos reuniam as pessoas vítimas
de conflitos e com sofrimento psíquico sob um cajueiro, sentadas
no chão, em troncos de árvores, em cadeiras ou mesmo em pé
e Dr. Adalberto, com seus alunos, deram início à sessão.
Nós não viemos somente curar vocês, viemos também
nos curar de nossa alienação universitária. Em seguida,
acrescentou: Eu sou psiquiatra e tenho um saber que aprendi na universidade.
Cada um de vocês tem o saber de sua vida, de sua cultura, de seus
antepassados negros, indígenas ou europeus. Todo mundo é doutor
de sua própria vivência. Cada história vivida é
uma lição aprendida. Nossa terapia será a partilha
desta sabedoria aprendida com nossas vidas.
A primeira sessão contou com a participação de 36 pessoas.
Hoje, onze anos depois, participam em média 120 pessoas por sessão
semanal às quintas-feiras à tarde. As terapias comunitárias
partem de uma situação problema trazido por uma pessoa ou
família em crise. Após a exposição do sofrimento,
o dirigente lança uma pergunta para o grande grupo para relançar
a reflexão. Quem já viveu uma experiência similar e
o que tem feito para superá-la? Emergem então do grupo várias
opções a partir das vivências pessoais. A função
do terapeuta comunitário é apenas suscitar a capacidade terapêutica
do próprio grupo. Por isso, não é permitido fazer julgamentos,
dar conselhos, fazer sermão ou discurso. Os temas mais freqüentes
falam sobre os conflitos familiares, nervosismo, violência doméstica,
problemas relacionados com delinqüência juvenil, drogas. Trata-se
de um grupo de ajuda mútua, em que cada um dá suporte ao que
sofre. A que foi ajudada sente-se melhor, vislumbra uma solução
para seus problemas e a que ajudou sente-se prestigiada. É a chamada
Terapia Comunitária construindo a teia das relações
sociais.
A partir das sessões de terapia comunitária, podiam-se vislumbrar
os maiores dramas daquela comunidade; alcoolismo, falta de medicamentos
e estresse. E aos poucos foram criados outros espaços para responder
a necessidades mais especificas.
QUO VADIS / Quatro Varas?
Nestes onze anos de trabalho, foi construído um modelo de atenção
primária em saúde mental. Destacam-se duas atividades:
a) A formação do terapeuta comunitário
Foi criado um novo ator social, o terapeuta comunitário, que atua
em suas comunidades. O projeto se alastrou até ultrapassar as fronteiras
do Estado. Atualmente, 17 estados brasileiros desenvolvem este trabalho
de prevenção, cura e inserção social de indivíduos
e famílias em sofrimento psíquico. Esta expansão foi
realizada graças a um convênio celebrado entre a UFC e a Pastoral
Nacional da Criança ligada à CNBB. Quatro Varas se comprometeu
em formar agentes de saúde mental pelo Brasil, começando pelo
Nordeste. Foram formados cerca de 500 terapeutas comunitários, desde
simples terapeutas massagistas, sem muita formação escolar,
até terapeutas comunitários para conduzir as terapias comunitárias.