WebDesigner: Ant. Cláudio
Aqui o saber comunitário se une ao saber científico.

HISTÓRICO

PROJETO 4 VARAS
Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária

O nascimento de uma comunidade.

Os moradores estavam reunidos e a pauta da reunião era decidir um nome para a comunidade. Foram sugeridos vários. Terra Prometida gritou um deles. Jardim das Oliveiras gritou outro. Quatro Varas, falou um senhor. Todos olharam para ele, meio assustados e sem entender o porquê daquele nome. Segundo a lenda, há muito tempo, um homem já muito velho, perto de morrer, chamou seus quatro filhos e mandou que eles fossem à floresta e trouxessem uma vara cada. Quando eles chegaram, o velho pediu que cada um quebrasse sua vara e eles o fizeram com a maior facilidade. Depois, o ancião amarrou-as com uma corda e mandou que os filhos tentassem quebrá-las novamente. Nenhum deles conseguiu e o velho disse: meus filhos, eu não tenho riquezas nem bens para deixar para vocês. Apenas essa lição. Enquanto vocês estiverem unidos, nada nem ninguém vão conseguir quebrá-los, separá-los. Mas se vocês se separarem, ficarão fracos. Depois dessa história, todo mundo aplaudiu a sugestão do velhinho e fundaram a Comunidade de Quatro Varas. Atualmente, conta com uma população de cerca de 12.000 habitantes e é uma das 110 comunidades organizadas do Pirambu, a segunda maior favela do Brasil, com uma população estimada em 250.000 pessoas.

A Filosofia da Aranha

Certo dia, um cacique Tremembé da região de capim-açu município de Taperuaba, conhecido por patriarca, veio participar da terapia. Ele estava ali para tentar encontrar uma cura para o problema da tribo dele, que estava ameaçada de perder suas terras e vivia dividida por conflitos internos. Seu problema, obviamente, não poderia ser resolvido de imediato pela comunidade, pois estava em um outro nível, governamental. Dr. Adalberto, então, ofereceu-se para ir a sua tribo com alguns moradores e ver o que poderia ser feito. Chegando lá, pôde presenciar a Dança do Torém, uma dança típica dos índios que enaltece os animais, com os quais seus antepassados conviveram. E entre essas danças, havia a dança da aranha. Segundo os índios, a aranha é o animal preocupado em construir sua teia. A teia, que é a fonte de vida da aranha, é também o seu vínculo vital. Ela é a sua moradia, é o seu alimento, é o seu transporte. Deste encontro, as duas comunidades se beneficiaram. Os Tremembés decidiram se organizar em associação cooperativa e a comunidade de Quatro Varas adotou a aranha para ser o símbolo do projeto Quatro Varas. Procurou-se identificar os diversos vínculos da teia comunitária: O vínculo com a terra, permitiu implantar a Farmácia Viva; o vínculo com a cultura, o Ateliê de Arte e Terapia; o vínculo com as tradições, a Casa da Cura. Estendia-se desta maneira a rede da vida.

O Projeto 4 Varas

O fundador e coordenador deste projeto, o psiquiatra e antropólogo, Dr. Adalberto Barreto, em 1988. Ele ensina medicina social na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC). Dr. Adalberto chegou a Quatro Varas através de seu irmão, o advogado Airton Barreto, morador do Pirambu há mais de dez anos e Coordenador do Centro dos Direitos Humanos do Pirambu - amor e justiça. Dr. Airton fundou um centro de atendimento jurídico, localizado no mesmo bairro, destinado às pessoas que têm seus direitos humanos violados.
Inicialmente, Airton mandava moradores do bairro ao Hospital das Clínicas da UFC para os cuidados psiquiátricos de Adalberto e seus alunos. Entretanto, o número de pessoas chegadas do Pirambu começou a aumentar muito e tornou-se inviável continuarem os trabalhos. Dr. Adalberto resolveu, então, transferir seu trabalho para o nascedouro dos problemas, a comunidade.
No primeiro encontro, os direitos humanos reuniam as pessoas vítimas de conflitos e com sofrimento psíquico sob um cajueiro, sentadas no chão, em troncos de árvores, em cadeiras ou mesmo em pé e Dr. Adalberto, com seus alunos, deram início à sessão. Nós não viemos somente curar vocês, viemos também nos curar de nossa alienação universitária. Em seguida, acrescentou: Eu sou psiquiatra e tenho um saber que aprendi na universidade. Cada um de vocês tem o saber de sua vida, de sua cultura, de seus antepassados negros, indígenas ou europeus. Todo mundo é doutor de sua própria vivência. Cada história vivida é uma lição aprendida. Nossa terapia será a partilha desta sabedoria aprendida com nossas vidas.
A primeira sessão contou com a participação de 36 pessoas. Hoje, onze anos depois, participam em média 120 pessoas por sessão semanal às quintas-feiras à tarde. As terapias comunitárias partem de uma situação problema trazido por uma pessoa ou família em crise. Após a exposição do sofrimento, o dirigente lança uma pergunta para o grande grupo para relançar a reflexão. Quem já viveu uma experiência similar e o que tem feito para superá-la? Emergem então do grupo várias opções a partir das vivências pessoais. A função do terapeuta comunitário é apenas suscitar a capacidade terapêutica do próprio grupo. Por isso, não é permitido fazer julgamentos, dar conselhos, fazer sermão ou discurso. Os temas mais freqüentes falam sobre os conflitos familiares, nervosismo, violência doméstica, problemas relacionados com delinqüência juvenil, drogas. Trata-se de um grupo de ajuda mútua, em que cada um dá suporte ao que sofre. A que foi ajudada sente-se melhor, vislumbra uma solução para seus problemas e a que ajudou sente-se prestigiada. É a chamada Terapia Comunitária construindo a teia das relações sociais.
A partir das sessões de terapia comunitária, podiam-se vislumbrar os maiores dramas daquela comunidade; alcoolismo, falta de medicamentos e estresse. E aos poucos foram criados outros espaços para responder a necessidades mais especificas.

QUO VADIS / Quatro Varas?


Nestes onze anos de trabalho, foi construído um modelo de atenção primária em saúde mental. Destacam-se duas atividades:

a) A formação do terapeuta comunitário


Foi criado um novo ator social, o terapeuta comunitário, que atua em suas comunidades. O projeto se alastrou até ultrapassar as fronteiras do Estado. Atualmente, 17 estados brasileiros desenvolvem este trabalho de prevenção, cura e inserção social de indivíduos e famílias em sofrimento psíquico. Esta expansão foi realizada graças a um convênio celebrado entre a UFC e a Pastoral Nacional da Criança ligada à CNBB. Quatro Varas se comprometeu em formar agentes de saúde mental pelo Brasil, começando pelo Nordeste. Foram formados cerca de 500 terapeutas comunitários, desde simples terapeutas massagistas, sem muita formação escolar, até terapeutas comunitários para conduzir as terapias comunitárias.

Copyright - 2006 - Projeto 4 Varas/ MISMEC-CE - Todos os direitos reservados.